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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SST – UMA ÁREA NÃO APENAS UM ESPAÇO

A prevenção brasileira ainda caminha por dias muito difíceis. Muitos são os problemas estruturais de nossa área de trabalho e poucos são os que de fato atuam ou trabalham da direção de corrigi-los. Falta ao profissional prevencionista brasileira visão estratégica – tanto do ponto de vista social como do profissional.

Poucos percebem que na verdade que a grande maioria dos problemas que envolvem a área fazem parte de uma única cadeia e que tentar discutir isoladamente as partes é chover no molhado, ver os anos passando e as cenas e fatos se repetindo. Com um pouco de atenção e análise talvez seja possível entender melhor esta cadeia e atuar de forma organizada e consistente sobre as verdadeiras causas. Discutir situações pontuais – sem olhar o todo – é perder mais tempo.

A situação da prevenção me lembra de certa forma o comercial de um famoso biscoito – onde a dualidade de conceitos no deixa eternamente em duvida. A maioria dos debates que assisto – me lembram cães correndo atrás do próprio rabo – onde quase não se percebe que ao atingir o objetivo irá lesionar-se. Se desejamos algo do futuro é bom então que repensemos o mais breve possível a nossa forma de olhar a prevenção pois sem isso não iremos ao futuro.

Uma boa análise a ser feita é tentar entender onde as questões de SST deveriam estar inseridas no contexto social. Muitos de nós que atuamos nesta área não percebemos mais que estamos falando não apenas de uma planejamento a mais no contexto empresarial – mas falamos de vida e dignidade e esta natureza mista de nossa área – que vive no limiar das coisas do dinheiro e das coisas da vida – jamais poderia ser perdida de vista. Então há de se entender que boa parte dos problemas passa por esta forma de visão – digamos assim – pelo menos equivocada da natureza e finalidade de SST. Interessante ressaltar o quanto isso tem haver com a imaturidade geral da sociedade brasileira e assim analisarmos o quanto entender o contexto geral é uma necessidade dos profissional de qualquer área – especialmente da nossa. Fica claro que em muitos casos a questão da ausência de respeito a SST – nada mais é do que mais um dos reflexos do total despreparo social que temos para respeitar a vida no contexto geral da sociedade. Na minha forma de ver não uma questão única e dirigida as questões de violência no trabalho – mas um problema muito maior no qual estamos inseridos. Em um país onde acaba sendo normal matar pelo mal uso de veículos. Matar pela certeza impunidade – acaba sendo implícito que matar no trabalho também é licito.

Então muito antes de simplesmente aplicarmos técnicas ou importarmos modelos – há necessidade de trabalharmos duro na revisão de nossos próprios entendimentos e mais ainda na compreensão do grau de maturidade social dos atores envolvidos no processo de definição e implementação de políticas de SST. Se não fizemos isso – o vácuo entre o comportamental e o entendimento e as práticas – será sempre fator determinante para que as coisas não funcionem. Como fazer isso – digamos –e tarefa para especialistas em equipes multidisciplinares – questão que estão muito além da simplicidade com que ora encaramos os fatos e da omissão das autoridades que precisam atentar para a gravidade da situação e através dos meios que já definiu – Comitês – possibilitar uma revisão mais ampla dos conceitos. De tudo – apenas a certeza de que não vai ser com a visão de apenas um ou dois lados que encontraremos um caminho: saúde não é negócio, saúde não é política e menos ainda moeda de troca.

Um outro ponto de fundamental relevância diz respeito ao posicionamento e espaço da áreas de SST dentro das empresas. Isso merece análise rigorosamente cuidadosa – até porque em algumas empresas chega a ser contraria as finalidades e preceitos dos famosos Sistemas de Gestão. Interessante que no Sistema da Qualidade é clara e obvia a necessidade de se ter uma figura “forte” para implantação e manutenção do Sistema – mas os chamados Sistemas de SST tem sido diferentes. Isso nos leva a crer – não generalizando – que muda-se apenas a forma de tramitar papeis – mas forma de acontecer segue sendo a mesma. De forma geral – as estruturas de SST estão dentro das empresas ancoradas em áreas onde pouco ou nada podem decidir e disputando verbas dentro de orçamentos voltados a questões pelo menos menores do que o direito a ida e saúde. Muito interessante analisarmos isso – porque todos os dias ouvimos histórias de colegas abismados quando sua gerencia decidiu que era mais importante trocar o carpete da sala do diretor do que instalar ventilação em áreas produtivas. Obvio, que as empresas tem direito e autonomia para decidirem como gastam seu dinheiro – mais evidente que as empresas tem o DEVER – e este vem antes do direito – de preservar a saúde dos cidadãos que emprega como mão de obra. Então aqui confundem-se o licito empresarial com a obrigação e certamente todos sabem a ordem dos fatores. Situações assim são mais do que comuns – sem que se faça qualquer averiguação mais profunda. Tornou-se um hábito – até porque adoecer e matar trabalhadores é algo que não gera muitos problemas. Interessante num pais que se cria tantas leis – a cada minuto por cada coisa – que ninguém tenha ainda atentado para a necessidade de definir o quanto uma empresa deve destinar pelo menos a questões de SST. Assim vemos por ai empresas imensas com orçamentos ridículos para nossa área – quando o tem. Ora é conhecido e possivelmente estimável estudar o quanto é necessário para fazer uma prevenção mais real. Em outras oportunidades já defendi e continuo defendendo que nosso governo deveria – com critérios bem definidos e transparentes – determinar que as despesas que SST sejam por alguns anos dedutíveis no Imposto de Renda – visto que trata-se de assunto de interesse geral.

Tudo que expomos acima carece no entanto de agentes sociais que exponham a realidade, apresentem os anseios e trabalhe junto a sociedade para que se tornem realidade. Nisso – somos omissos – pois entendemos prevenção de forma diminuta e não conseguimos entender que os esforços isolados pouco contribuem para que a realidade mude. Agimos assim por não ter visão ampla da situação – por não entender a profundidade, extensão e gravidade do assunto. O problema da prevenção não vai ser resolvido do debate entre os profissionais do SESMT: nossa situação não vai mudar com mais este ou aquele papel – o problema é maior e mais complexo.

Espero que os profissionais que hoje chegam ao mercado em conjunto com o que ai estão e tem visão lúcida e ampla consigam atuar de forma mais ampla e em direção as estruturas equivocadas. Assim teremos futuro – e muitos trabalhadores também.

domingo, 30 de setembro de 2012

SEGURANÇA QUE NINGUÉM QUER VER

Ao longo dos anos quem trabalha acaba entendendo na prática e a duras penas aquela velha estória que explica a valorização do ovo da galinha em detrimento ao ovo da pata.
Nestes 15 anos de prevenção de acidentes tendo a oportunidade de desenvolver atividades continuamente no chamado chão de fábrica e ao mesmo tempo participar e acompanhar os grandes debates relativos da área entendo que há necessidade de urgentemente juntar as duas prevenções de acidente – ou seja – a prevenção do dia a dia – feita pelos chamados SESMT e a prevenção teórica discutida e tratada por aqueles que mesmo com muita boa vontade e conhecimento pouco ou nada conhecem sobre a realidade desta área. Esta dicotomia – que em nosso país não é um privilegio da área prevencionista - ao longo do tempo prestou uma serie de desfavores que por fim veio a atingir mesmo aos operários contribuindo em alguns casos para a involução da segurança e saúde no trabalho. Não creio que de fato exista de qualquer uma das partes algum tipo de intenção de causar danos, vejo mesmo até certa boa vontade – no entanto longe vai o tempo onde apenas boa vontade tinha algum valor.

Independente do que venha acontecer no futuro – neste momento difícil de precisar já que as negociações relativas a NR 4 ainda encontram-se em temas de fácil acordo – é importante que nos – os profissionais que conhecemos a esquina onde a prática encontra-se com a teoria estejamos atentos acima de tudo como especialistas e como cidadãos para que não se faça deste segmento algo inviável e especialmente que não se remeta a questão da vida e saúde para um campo de interesses nebulosos.

Notoriamente, os problemas de segurança e saúde no Brasil não estão na legislação – reconhecida pelas vozes e mentes mais conscientes da comunidade prevencionista deste país como moderna e adequada.

Difícil supor que as nossas NR não cumpram seu papel, quando na verdade em boa parte dos locais de trabalho elas não são cumpridas.

Sabemos – não por informações e notas – que nas empresas onde os programas de segurança são efetivos – e estes elaborados a partir das NR – o índice de prevenção mostra-se em muitos casos superior ao obtido em paises do chamado primeiro mundo mesmo que tenhamos por aqui máquinas obsoletas e outras condições um tanto quanto complexas.

Com certeza podemos dizer que é verdade que o modelo do SESMT do Brasil deu certo mas é claro que não nos referimos a teoria do SESMT e sim a sua aplicação na prática e por toda sua extensão.

Penso que seja preciso coragem para partirmos em direção a um estudo onde seja possível mostrar a evolução da prevenção em dois modos distintos, sendo o primeiro no segmento de pouco menos de 2 % das empresas instaladas no Brasil que mantém o SESMT e o segundo nas demais empresas.

Dizer ou afirmar que o SESMT não contribuiu ou contribui para a melhoria das condições de segurança do trabalho em nosso país sem que seja feita esta avaliação é algo pelo menos tendencioso e sem qualquer validade estatística.

Tenho em mãos as estatísticas de 12 grandes empresas que atuam no Brasil. Sem exceção em todas elas os números mostram que alguma coisa mudou.

Numa comparação simples fica fácil entender que estas empresas tal como outras tantas ao longo dos últimos estiveram expostas a todo tipo de pressão dos fatores externos. De diferente, encontro apenas que estas empresas cumprem a NR 4 e mantém em seus quadros grupo de profissionais prevencionistas atuantes. Obviamente sei também que estas empresas passaram na ultima década por alguns momentos com problemas relativos à prevenção. Estudando os casos, encontramos momentos da história da relação capital – trabalho que tiveram forte influencia, casos como a abertura com poucos critérios das terceirizações por exemplo. Vale aqui citar a situação pela qual passa uma grande e conhecida empresa nacional – que no passado recente era referencia em termos de prevenção de acidentes mesmo quando comparada com outras similares do chamado mundo moderno. Até onde sei desde muito a atividade desenvolvida por esta empresa enquadra-se no rol das atividades industriais de maior risco, mas também sei que durante muito tempo não se tinha noticias de acidentes mais graves em suas instalações.

É fato – possível de constatação quando estudado – que nas empresas onde o SESMT foi estabelecido o padrão de segurança e saúde ampliou-se e consolidou-se. Tal constatação pode ser feita com facilidade desde que levado em conta o bom senso.

O QUE NINGUÉM VÊ
Alguém precisa dizer para algumas pessoas menos avisadas que estamos no Brasil.

Esta é uma premissa essencial para qualquer debate que queira ter a seriedade como base.

Alguém precisa um dia falar com seriedade sobre as coisas que fazemos aqui e deixar de vez por todas de tentar impor que ou adotamos modelos externos ou não sobreviveremos.

A prevenção de acidentes brasileira é com certeza uma das áreas que mais evoluiu nas ultimas décadas.

O formato dado ao SESMT, CIPA e outras iniciativas tomadas nesta direção é compatível com a cultura de nossa gente, com a necessidade de estabelecer um processo educativo e cultural capaz de corrigir erros grosseiros na nossa estrutura porquanto sociedade industrializada.

Não quero dizer com isso que tal estrutura ou modo de gestão para o assunto deva ser definitiva – creio que um dia chegaremos ao tempo onde de fato como em tudo na evolução tenhamos necessidade de rever o modo atual. No entanto, no presente momento de nossa história mudar este modelo é pelo menos temeroso.

Primeiro porque não temos ainda no seio de nossa sociedade uma cultura mais arraigada com relação ao real conceito de saúde. Vivemos ainda em um país onde é possível a troca de saúde por adicionais e isso ocorre num momento econômico onde tais adicionais fazem muita diferença nos ganhos dos trabalhadores.

Apenas este fato por si já demonstra a imaturidade de alguns envolvidos na questão e nos levam a ter duvidas de como irão portar-se caso tenham para si a responsabilidade de tratar o assunto.

Ora, é preciso que fique claro – em especial para aqueles que distante de tendências queiram de fato entender o assunto – que não foi e nem é o SESMT que se empenha para a manutenção e obtenção destes adicionais – antes – ao longo dos anos os SESMT se empenharam e tem conseguido trabalhar em prol da eliminação dos riscos. Isso é um fato palpável em muitas empresas por todo o país e em alguns casos com soluções de tal forma criativas que já há algum tempo vem sendo adotadas em outros paises que se espelham na nossa Engenharia de Segurança para encontrar soluções para seus problemas.

Questão de prevenção de acidentes no Brasil, passa como todas as demais questões estruturais, como assunto que carece de ser olhado com seriedade.

Quando deparamos com as noticias de acidentes fatais nos jornais que lemos chama a atenção uma questão das mais interessantes: Não falta know how para que tais acidentes sejam evitados – a grande maioria deles ocorre pela inobservância de questões primárias da prevenção.

A maior condição insegura deste país é a certeza da impunidade que tem lugar comum ao lado de todas as demais barbáries que vemos. É certo que por todo mundo acidentes – situações inesperadas ou não programadas – ferem, mutilam e matam. Mas também é certo que há muito tempo nos paises evoluídos acidentes como o que vemos em nossos noticiários deixaram de ocorrer na quantidade que ocorrem por aqui. Isso já é uma realidade dentro das empresas onde os SESMT atuam e de certa forma cumprem o papel da autoridade. Nos demais locais de trabalho – de onde as autoridades e a justiça mantem-se distantes não seria a falta do SESMT algo a ser pensado ?

Ontem li nos jornais o caso de mais um acidente fatal, onde o trabalhador veio a cair de uma obra de um prédio em SP.

Na própria noticia – escrita por alguém que não tem qualquer conhecimento mais profundo de nossa área – está explicito que o empregado não tinha qualquer tipo de equipamento de segurança.

Todos os dias tomamos conhecimento de casos assim, mas há muito tempo – se prestarmos atenção – não temos mais noticias deste tipo – ocorridos dentro de empresas de grande porte. Será que os telhados e fachadas destas empresas - algumas delas com mais de 4 mil empregados em constantes obras, tem alguma diferença destas que encontramos em cada esquina deste país ?

Parece-me simplório demais não querer ver a realidade.

Seria importante que neste momento estivéssemos discutindo – como há uma proposta em estudo – a universalização do SESMT. Tratando disso com certeza estaríamos prestando um grande favor ao país e sua gente. Pode ser que isso incomode alguns segmentos – sem o profissional especializado para dar parâmetros ao debate – a tratativa das questões de segurança e saúde podem ser conduzidas sem qualquer critério para o campo do negocio onde na maioria das vezes não há qualquer interesse real pela saúde e segurança das pessoas. No entanto – e preciso que aqueles que tanto defendem os modelos vindos do exterior tenham coragem de dizer que em muitos paises modernos do mundo isso é uma realidade. Dia destes, auxiliando na tradução técnica de uma auditoria de um sistema de gestão vinda de um destes paises constatei que a primeira pergunta era exatamente quanto ao estabelecimento receber algum tipo de suporte especializado sobre segurança e saúde – isso independente do numero de empregados ou grau de risco. Tal questão – em meio a um calhamaço de questões relativas a certificação para um dado sistema, quando não atendida, implicava na não certificação.

Eis ai mais uma questão que ninguém quer ver: onde ocorrem os acidentes do trabalho no Brasil ? Nas empresas com SESMT ou nas 98 % das empresas que não tem qualquer tipo de cobertura especializada ?

Não é preciso estatística, basta ler jornais todos os dias. Basta participar de grupos sociais de sua comunidade e lamentavelmente constatar que o grupo de mutilados e inválidos já não passa desapercebido. Basta tomar ciência que em SP criou-se a Associação das Viúvas de Mortos por Acidentes na Construção Civil. Dê uma volta no quarteirão de sua casa e veja quantas obras encontra sem qualquer cuidado de segurança.

OS CAMINHOS DO FUTURO
Os caminhos que hoje vemos pela frente, no meu entendimento não se mostram consistentes a ponto de levarem a todas as mudanças sobre as quais ouvimos falar.

Tentar colocar num mesmo momento o fim do SESMT dentro das empresas e a privatização do seguro acidente e ir de encontro a uma realidade que vai causar muitos problemas.

Hoje, todas estas deficiências e buracos que vemos no modo de gestão do assunto em muitos casos acabam não onerando a empresas devido a postura paternalista e sem gerenciamento da previdência pública. Com isso quero dizer que parte do buraco deixado pela ausência e falta de atuação do prevencionista nas empresas é assumido e pago pelo Estado deixando parte do empresariado sem muitas preocupações com o assunto.

Em suma, é possível não pagar pela prevenção porque também não se paga pela falta dela.

No entanto, no momento em que estivermos diante destas seqüelas tratadas como parte de um negocio – que como todo negocio deve dar lucro – estaremos diante de um grande centro de conflitos.

Penso que pouca gente se deu conta disso. Para garantir menores custos com seguros as empresas irão precisar mais do que nunca do SESMT e a retirada deste dos locais de trabalho – seja pela criação do suposto SEST Coletivo ou algo assim – será mais uma grande desfavor ao cidadão que ao final de tudo estará mais vez – se o rumo das coisas não for mudado – arcando com o repasse dos custos nos produtos – para pagar pela falta de condição de segurança nos locais de trabalho. Ou seja – a mudança do seguro acidente e o afastamento simultâneo do SESMT dos locais de trabalho – serão pagos com certeza por todos nós.

Para evitar isso – que com certeza será a saída encontrada – há necessidade de trabalharmos a transição do modelo atual do SAT para o privatizado com a manutenção e ampliação dos Serviços Especializados em Segurança e Saúde. Talvez seja este o modelo correto para o Brasil.

Portanto, cabe-nos contribuir – tanto pelos interesses da prevenção essencialmente dita, como pelos interesses gerais do país, para que o debate hoje em curso sobre a NR 4, encontre resguardo na contribuição que conduza a decisão ao interesse geral.

Nenhum debate ou nenhuma decisão que não leve em conta as questões culturais – seja do empresariado – seja do trabalhador – irá de encontro a soluções e propostas que façam frente a realidade.

Neste momento, o papel do prevencionista como quem pode oferecer subsídios para um debate mais realista – torna-se de suma importância.

Precisamos dizer a comunidade em geral, aos grupos sociais organizados e as cabeças que dirigem este país – sem fazer aqui trocadilho – o rumo mais seguro para este assunto.

Com a palavra os especialistas práticos – que ao longo dos anos mostraram-se tecnicamente por demais capazes, mas politicamente verdadeiras nulidades.

domingo, 22 de julho de 2012

PORQUE O TRABALHO MATA

Depois das salas de aula e antes dos portões das fábricas...

Muito distante do debate meramente técnico espero neste artigo conseguir transmitir alguns temas que com certeza podem causar grande debate dentro uma sociedade que tenta encontrar soluções para seus principais problemas dentro das mesmas regras que levam a ocorrência destes problemas. 

Não e tarefa fácil discutir sistemas, hábitos e cultura – mas sinto-me obrigado a faze-lo muito especialmente pela crença de que há entre nos muitas pessoas que embora equivocadas na sua forma de encarar determinados assuntos tem em si ainda a verdadeira intenção de fazer algo de real e verdadeiro por nossa área e por conseqüência evitar o sofrimento e a perda de vida de milhares de trabalhadores.

Obviamente muitos dirão que parte do que digo é pura utopia e a estes responderei que utopia e a denominação política que alguns dão ao que muitos outros chamam de sonhos e esperança. 

Outros, dirão que o que neste momento escrevo não tem validade porque não encontra espaço dentro das tendências e regras conhecidas e em uso – a estes com tranqüilidade direi que acredito na evolução humana e que se há pouco mais de um século alguém afirmasse que a escravidão era uma aberração teria dos mesmos donos da verdade as mesmas respostas. 

Não entendo e nem quero entender como há pessoas que tem capacidade de situar o sofrimento alheio dentro de alguma lógica – isso pode parecer sadio e coerente de forma muito limitada dentro das regras transitórias de algum subsistema – mas com certeza não tem qualquer amparo lógico e menos ainda ético dentro das regras mais profundas da convivência entre os seres. Dar luz a este tipo de pensamento e consentimento e tornar nulo todo discurso da grande maioria dos humanos – e dissociar as pessoas – tornando-as pelo menos duas – uma que socialmente, religiosa e filosoficamente defende a vida humana e de animais e outra que profissionalmente consente na morte súbita ou gradual em troca do pão da sobrevivência – isso diga-se de passagem de alem de antiético – no sentido mais amplo e consolidado que a ética possa ter – e pelo menos hipócrita e com certeza cínico.

Um bom começo para um amplo entendimento do que tento dizer e ir na direção da vida. 

O entender que a vida não e um privilegio para minorias é de suma importância não só para nosso assunto mas com certeza para toda uma existência melhor. 

O entender que a manifestação da vida se dá distante dos nossos conceitos de poder ou status também é essencial e assim sendo chegamos a conclusão que a VIDA é um direito básico, essencial e que não está e jamais deverá estar a sobre qualquer mesa para ser discutido ou negociado. 

Isso parece muito claro para a maioria das pessoas quando um ser marginalizado agride um ser inserido adequadamente no contexto em um cruzamento de uma grande cidade – mas nem sempre tem o mesmo significado quando de certa forma se faz o mesmo com agredindo a saúde ou ceifando a vida de um trabalhador. Parece que chegamos a um nível tão baixo de decência social que o matar ganha formas de legalidade quando o atingido faz parte de grupos sociais numericamente maiores. Isso pode parecer implícito, pode ter valor de regra e ter ares de normalidade mas com certeza é ao mesmo tempo a base de muitos dos chamados problemas sociais que conhecemos e dolorosamente convivemos em nosso tempo. 

A banalização da vida tem sempre mais de uma via e induz ao falso entendimento de que algumas ou muitas coisas são permitidas. Assim, podemos chegar a pensar que o mesmo processo de permissividade em relação a vida de elementos de certos grupos sociais – pode ate que sem que perceba ser uma das causas que leva aos efeitos que atingem outros segmentos. Em suma, se tiram a vida dos meus, porque não posso tirar vida dos deles ?

A nos profissionais da prevenção cabe uma preocupação mais ampla do que conhecer e dominar o grande mundo dos sistemas e ferramentas com os quais tentam nos fazer crer que um ambiente possa se tornar seguro. Talvez não tenhamos forca nem poder para modificar certas instituições há muito estabelecidas – mas com certeza a obrigação e o dever ético de compreender sem lenitivos o que há por detrás disso. E este entendimento passa pela necessária observação de que há nos extremos das relações pessoas e que a clara avaliação não se fundamenta em títulos ou a ausência deles, não deve estar calcada no trajar social ou macacões – mas na tentativa da compreensão dos valores e idéias que ali são vigentes. O ter estudado ou não estudado não define a forma e a intensidade do comprometimento de qualquer uma das partes com vida e ética. Ser o que manda fazer ou ser o que faz não estabelece diretrizes de comportamento melhores ou piores. Isso na pratica quer dizer que mesmo nos locais de trabalho mais simples e sem qualquer aparato para a prevenção pode haver mais segurança no trabalho do que na mais complexa empresa, enfeitada para a vida mas sem qualquer preocupação em relação a ela. Isso depende da maturidade social dos atores envolvidos – especialmente dos que projetam,planejam e supervisionam trabalhos.

Um ponto interessante a ser levantado aqui neste momento diz respeito a tentativa de mudar condutas pela definição de uma política para certos assuntos. Originalmente a idéia e bastante interessante mas a pressa de obtenção faz com que maturação do assunto se perca e o que era para ser um norte vire apenas mais um papel. 

Para a boa compreensão do assunto então devemos ir muito alem do que hoje conseguimos ver. Isso vai muito adiante do falido modelo de prevenção – não valido apenas por si – mas uma conseqüência do falido modelo social. Para nos e importante entender que por detrás e ao lado das mesmas que pessoas que permitem trabalho perigoso estão as pessoas que atiram por qualquer razão em uma briga de transito, que matam suas esposas ou maridos e tentam resguardar suas ações em bases injustificáveis. Para um melhor entendimento do que norteia este mundo de sofrimentos que há por detrás do mundo do trabalho – e preciso ir na direção da compreensão do fenômeno do racismo e não apenas da cor – mas o racismo pela terra e origem que leva nitidamente certas pessoas a aceitarem como normal a idéia de que alguns morram – por serem seres de segunda categoria – para que e seu negocio prospere. Não tenho qualquer duvida em afirmar que esta suposta diferenciação – que existe em muitas cabeças as vezes muito bem formadas intelectualmente mas totalmente desprovidas de valores mais profundos não exista qualquer constrangimento na crença de que mão de obra é um subtipo humano e que assim sendo pode tranqüilamente ser submetida a trabalho degradante, perigoso, insalubre e como nossos jornais mostram quase todos os dias – trabalho escravo – por serem cidadãos com menos direitos sociais.

Olhando assim talvez fique mais palpável a tentativa de compreender porque algumas pessoas permitem que outras pendurem-se em fachadas de altos prédios sem portarem os necessários equipamentos de proteção. Trazendo para o campo de nossa compreensão esta forma de entendimento talvez ganhe um pouco mais de sentido o ver inúmeros operários expostos ao ruído e por conseqüência muitos destes condenados pelo resto e parte das suas vidas ao isolamento do mundo audível sem que se tome providencias efetivas para que isso seja evitado. Talvez seja mais duro a partir desta ótica aceitar que muitas pessoas muito bem formadas e conhecedoras dos riscos de algumas substancias químicas permitam sem qualquer drama de consciência que famílias sejam atingidas por efeitos mutagenicos e teratogenicos.

Diante disso é preciso então ir muito alem do que os conceitos que hoje temos preconizam e entender que o problema do trabalho inseguro não e distinto nem diferente dos grandes demais problemas que tornam nossa sociedade doente com aparência de saudável. Isso para o campo da atuação técnica e de grande valia desde que não se perca em extremismo políticos que turvam via de regra a visão real dos fatos e comprometem o estudo e a compreensão real dos fatos. Nos da prevenção que há muitos anos falamos da necessidade de mudança de comportamento – certamente temos falado sobre o assunto correto no entanto de forma parcial – pois a questão comportamental não esta apenas no dia a dia laboral mas de forma muito mais ampla no seio de toda uma sociedade. Passamos a entender aqui que não há como ensinar regras que possam ser efetivas para pessoas que não maturidade social para absorve-las a ponto de virar valor.

Vale lembrar  em nossas atividades que a melhor norma escrita não terá adesão quando houver antes dela algo mais forte e enraizado que turve a visão nítida entre dois seres humanos – ate porque uma das partes não entendera como legitimo o direito a vida da outra parte. Da mesma forma e com menos peso – o inverso pode ocorrer quando a parte que recebe ordens tem barreiras já bem definidas quanto a tudo que é emitido pela parte que comanda e rejeita sem qualquer critério tudo que venha desta direção. Surge aqui então a necessidade de uma analise muito mais ampla – quando se deseja resultados e não apenas aparência preventiva – visando identificar fatores subjetivos que inibam a pratica da prevenção devido as relações.

Compreendo que este texto para algumas pessoas ganhe ares de subjetividade e isso com certeza não deveria ser novidade para quem entende que qualquer ação técnica com o envolvimento de seres humanos tem por este mesmo envolvimento situações deste tipo. Entendo também que a extensão deste assunto foge a técnica pura e simples do nosso domínio e deve agregar a prevenção o envolvimento de outros especialistas que com certeza trarão imenso ganho ao gerenciamento preventivo – desde que observe-se o respeito entre os campos do conhecimento e siga-se uma conduta de horizontalidade na realização dos estudos e trabalhos – já que a verticalizacao de visões e papeis e a base deste problema e não será jamais com a mesma postura encontrada a solução. No entanto, afirmo que a observação é parte do trabalho do prevencionista e que de forma alguma e impossível que a partir dela possam ser identificados outros fatores que contribuam para a não prevenção e que soluções possam ser buscadas a partir delas.

Em suma – o que desejei fazer e espero ter conseguido e alertar os colegas interessados para a necessidade de uma revisão dos valores e conceitos que precisam estar inseridos na analise da questão – mesmo que apenas na nossa compreensão pessoal para a busca de uma pratica prevencionista mais elaborado, verdadeira e eficiente.

Prevenção de acidentes é algo feito por gente, para gente e através de gente – os sistemas, ferramentas e papeis serão úteis quando aqueles que os escrevem, lêem, aplicam e cumprem estiverem despidos dos equivocados trajes das mascaras sociais – que não permitem ver o que de fato há outro lado e ao mesmo tempo não permitem que se possa ser visto. 

As mesmas mascaras que legitimam o que nem de longe pode ser legitimo.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

sábado, 21 de julho de 2012

ATO INSEGURO - O QUE HÁ POR DETRÁS DISSO


Embora a área de prevenção de acidentes tenha nos últimos anos passado por grande evolução existem ainda alguns pontos e algumas questões que carecem de revisão ou atenção. Sem dúvida alguma a questão do ATO INSEGURO está entre estas.
Por detrás deste termo oculta-se um universo de situações registradas obscuramente e quase sempre com o objetivo de definir e transferir a culpa para o acidentado.
Do ponto de vista ético o uso inadequado do ATO INSEGURO é uma lacuna vergonhosa na história da prevenção de acidentes e que contribuiu demais para que muitos segmentos sociais vejam o SESMT com maus olhos.
Não bastasse isso um outro grande problema gerado pelo mal uso diz respeito a impossibilidade de gerarmos - a partir da caracterização equivocada das causas dos acidentes - programas capazes de fazer frente as reais causas dos acidentes.
Claramente falando fica evidente que as medidas tomadas para evitar novos acidentes - a partir das clássicas investigações - não são mais do que panacéias visto que não sabendo a real causa certamente tudo que fizermos para corrigi-la será inócuo.
Diante disso algumas pessoas podem alegar que mesmo assim seus programas de segurança apresentam resultados.
Com certeza isso é verdade - em especial porque a grande maioria destes programas diz respeito ao comportamento - e mesmo que não atinjam diretamente as causas destes ou daqueles acidentes - irão de alguma forma contribuir para a redução no geral.
Poderíamos chamar isso de prevenção de acidentes no "atacado" , mas gostaríamos de lembrar que a investigação inadequada ou tendenciosa pode - digamos assim - levar a acidentes mais graves no "varejo".
Particularmente e pela experiência temo muito estes programas muito amplos que não contemplem atenção especial a situações especificas.
Penso que muitos deles conduzam a "sensação de ambiente seguro" - ficando apenas na sensação. A realidade mostra casos de muitas empresas - algumas delas com tradição em prevenção de acidentes - onde registraram-se a ocorrência de seqüenciais acidentes graves mesmo estando dentro de poderosos e famosos programas de segurança.
Um ponto importante que também deve ser discutido diz respeito ao direito do acidentado de conhecer a verdade sobre os fatos.
Neste ponto há uma mistura das mais complexas de ignorância, medo e culpa.
Durante todos estes anos tentei entender ou compreender o que vai dentro de uma pessoa que tendo perdido uma parte de seu corpo ainda tenha que de alguma forma assumir que o fato ocorreu por sua vontade e ação pura e simplesmente.
Penso que neste ponto estamos diante de uma das questões mais complexas do universo da infortunística laboral e de uma imensa divida social.

EXISTE ATO INSEGURO ?

Com certeza sim.
A própria natureza humana e a capacidade de escolher ou criar inerente ao ser humano acabam por possibilitar que certas atitudes impliquem em alguma forma de insegurança.
No entanto para chegarmos até esta conclusão precisamos levar em consideração uma série de fatores.
Um erro, uma falha, uma atitude pura e simplesmente não podem por si caracterizar um ato inseguro.
Por detrás do AGIR há muitos fatores que podem e DEVEM ser analisados.
Ato inseguro - na concepção mais justa da coisa - é uma conduta a partir de uma decisão, escolha ou opção que desnecessariamente conduzam a ocorrência de um acidente ou contribua direta ou indiretamente para que ele ocorra.
Vejam bem que as palavras ESCOLHA OU OPÇÃO ou DESNECESSARIAMENTE são de suma importância nesta definição.
Não há coisa mais simples no mundo prevencionista do que atribuir a culpa ao trabalhador.
E como já foi dito acima - embora culpa não seja a palavra mais adequada - ocorrem sim acidentes cujas causas estão diretamente relacionadas a atitude do acidentado. Mas tenham certeza de que elas são muito mais raras do que indicam tantas e muitas estatísticas que vemos por toda parte.
Antes de chegarmos pura e simplesmente ao momento do acidente - ponto este que a maioria dos prevencionistas utiliza para realizar sua investigação e análise, precisamos entender uma série de coisas.
A primeira delas diz respeito a DECISÃO, ESCOLHA OU OPÇÃO.
A pergunta mais simples - e também mais polemica - é a seguinte: poderia o trabalhador decidir, escolher ou optar por fazer de outra forma ?
Na maioria dos casos veremos que não - embora muitos que insistam em não enxergar a crueza e dureza das relações de trabalho em nosso país - dirão que sim.
 Muito do que ocorre de acidente neste país - tem como causa fatores já implícitos no próprio processo formal das empresas - trata-se do errado que ao longo do tempo passa a ser o obvio e normal.
Um processo errado que tem em si uma série de condições inseguras - que somente serão vistas por que de fato conheça os parâmetros reais da prevenção. O fazer aquilo por si já é inseguro - porque seja o método, seja o meio ou seja lá o que for não permite ou possibilita que o trabalhador faça em condições normais sem expor-se ao risco.
Seria um tipo de condição segura inerente, encoberta pela falta de preparo e conhecimento de pessoas que supostamente analisam estas atividades e as tem como normais e possíveis de serem executadas sem acidentes.
Dentro deste universo, por exemplo, estão as questões do ritmo - um verdadeiro fantasma na vida do trabalhador e muito bem caricaturado em um filme do genial Chaplin.
Em tempos onde tanto se fala de ergonomia resta-nos a esperança de um dia chegarmos a entender melhor esta relação homem x tempo x trabalho e no futuro quem sabe - ouvirmos alguém atribuir a Deus a culpa por ter criado um ser incapaz de acompanhar o ritmo definido sem qualquer critério.
Deve ficar claro que o ATO INSEGURO existe quando o trabalhador pode decidir pelo erro.
Obvio que a decisão acertada carece de conhecimento prévio - e portanto - a falta de treinamento ou preparo descaracterizam o ato inseguro - visto que a decisão errada quando tomada por falta de conhecimento independe do trabalhador.
Para assimilarmos estes conceitos é preciso na verdade revermos muito do que assumimos como normal e formal e regressarmos as bases da relação do trabalho. Usar da mão de obra, dos préstimos ou serviços de outro para obter resultados ou lucros - implica na aceitação de teorias e normas da ética e do direito.
Um outro ponto importante a ser levado em conta diz respeito a realidade social brasileira.
Bem sei que tais analises são quase que impraticáveis pelos SESMT - mas do ponto de vista do estudo, detectação e analise de causas não devem ser desprezadas - sendo essenciais para a análise do ponto de vista jurídico.
Refiro-me aqui a questão do temor reverencial - ou seja - do medo que o trabalhador tem de seu superior por quanto é esta a pessoa que pode decidir pela manutenção ou não de seu emprego e por conseqüência da própria subsistência e também a de seus familiares.
Uma das características muito próprias da questão acidentaria brasileira diz respeito à ausência das garantias mínimas sociais - ou seja - em nosso país a obtenção dos serviços básicos com qualidade e em tempo hábil está diretamente associada ao emprego.
Desta forma, antes de ser cidadão ou mesmo para se-lo, parece ser imperativo estar empregado.
Perder o emprego significa perder a assistência medica adequada, o transporte com qualidade, o acesso ao credito, a moradia, a boa escola para os filhos. Etc.
Por esta razão parece obvio que o trabalhador brasileiro sujeite-se mais aos riscos e perigos do que os trabalhadores do primeiro mundo - onde a perda do emprego não significa uma ruptura de tal magnitude.
Falando do desnecessariamente nota-se que em algumas momentos isso confunde-se com a decisão, escolha ou opção.
Deve ficar muito claro que não ERA PRECISO FAZER AQUILO que conduziu a ocorrência do acidente. Casos como este são muito comuns nos acidentes ocorridos com pessoas com maior grau de instrução e formação.
São de fato verdadeiros atos inseguros, porque as pessoas sabem como fazer, existem meios corretos e disponíveis - mas optam - pelo uso do suposto conhecimento e outros motivos - por fazer de forma diferente.
Não se deve e nem se pode confundir o desnecessário - Teremos sim um ATO INSEGURO quando ficar patente que apesar de TODAS as condições necessárias estarem à disposição do trabalhador - incluindo-se aqui o conhecimento e a informação - Este por sua livre decisão optou por fazer de forma diferente. ESTE SIM É O GENUINO ATO INSEGURO.
INDO UM POUCO MAIS ALÉM

Importante entender que a mudança da cultura em relação ao ato inseguro é algo benéfico para as empresas que realmente tem interesse em investir em prevenção de acidentes e seus custos.
Como já foi dito acima sem precisar de fato as causas reais do acidente é impossível trabalhar na direção correta das ações que irão evitar novas ocorrências.
Sem a realidade a base do programa de prevenção estará totalmente fora do foco correto e mais uma vez recursos serão jogados fora.
 Isso precisa ser explicado para a alta direção e principalmente para a media supervisão das empresas.
O que hoje é cômodo e encerra o assunto - ou seja - a atribuição dos acidentes ao trabalhador e a tentativa de prevenção pelo convencimento (palestras, diálogos, dds, etc.) na verdade pode estar encobrindo problemas sérios que invariavelmente só vão ser levados em conta quando do evento de uma perda ou morte.
É preciso educar as pessoas para encararmos a questão do acidente de frente e sem subterfúgios. Precisamos - e isso primeiramente nós do SESMT - deixarmos de lado os velhos valores e informações quanto às causas dos acidentes - e nos dedicarmos ao estudo técnico e detalhado do assunto.
 O que hoje apresentamos como resultados - em parte totalmente inválidos devido à cultura do ato inseguro sem maiores critérios - se questionado dificilmente teremos como responder.
Vejo que em boa parte das empresas adota-se após a investigação/análise a apresentação de gráficos ou quadros com as principais causas de acidentes. Confesso que durante muitos anos venho esperando que um dia alguém questione: - Tudo bem, vocês da segurança estão me dizendo que 85 % dos acidentes ocorrem pela distração dos empregados. Qual a proposta para evitarmos isso? Certamente ninguém terá outra resposta - ou então cairemos mais uma vez nas velhas palestras - embora a transferência de conhecimentos não posso modificar nosso estado de atenção.
Fica claro que a busca por soluções reais - e talvez ai valorização para nossa área - passa por uma revisão de conceitos e método de atuação.
Se a nossa área cabe apontar os caminhos que levam a prevenção - certamente só estaremos próximos a estes quando ao menos soubermos por que de fato temos acidentes.
A mudança de cultura pode ser dolorosa, mas os resultados com certeza serão muito mais seguros.
Cosmo Palasio de Moraes Jr.
Divulgação e reprodução autorizada desde que mencionado o autor e a fonte.
Cosmo Palasio de Moraes Jr.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A SEGURANÇA NO USO DE VEÍCULOS INDUSTRIAIS

Presentes em boa parte dos locais de trabalho, os veículos industriais são de grande utilidade no desenvolvimento de muitas atividades. São também no entanto bastante perigosos especialmente quando usados em condições inadequadas e/ou de forma incorreta.

O gerenciar a prevenção de acidentes com este tipo de equipamentos deve estar entre as preocupações básicas de qualquer programa de segurança do trabalho. Tal cuidado deve ser planejado e mantido de forma integrada, observando não apenas cuidados com os equipamentos, mas também com o operador, os meios a serem movimentados e as vias a serem utilizadas.

Na verdade por detrás do uso dos veículos industriais ocultam-se uma série de riscos que muitas vezes passam sem ser notados nas atividades cotidianas. Em muitos casos providencias só vão ser tomadas após a ocorrência de um acidente – quase sempre muito grave. Um exemplo claro de situações deste tipo ocorre com o número cada vez maior de estabelecimentos atacadistas que realizam também vendas no varejo (hipermercados), onde é comum observarmos a operação de veículos industriais por pessoas que nitidamente não tem preparo para este tipo de operação. Tais locais – pela presença de pessoas (clientes) sem qualquer informação para o risco de acidentes – tornam-se cenários mais do que propícios a ocorrência de acidentes.

Dirigir transportando cargas é uma atividade por si merecedora de atenção.

A variedade de cargas e tipos de embalagens – mesmo que sobre estrados – exige bastante treinamento e habilidade. A isso, somamos a questão de problemas de lay out – seja pela falta de espaço compatível com a necessidade de manobras ou que possibilite a realização das mesmas com certa margem de segurança - ou ainda – pela falta de organização que acaba implicando ainda em maior redução do espaço criando uma situação evidente de risco de acidente.

Portanto, logo de inicio devemos ter em mente que prevenir acidentes nas operações com veículos industriais é assunto que para ser bem cuidado deve envolver muito mais do que apenas preocupações com o veículo em si.

A NR 11 COMO BASE
A norma Regulamentadora 11 – Transporte, Movimentação, Armazenagem e Manuseio de Materiais deve ser tomada como referencia para a elaboração de qualquer atividade preventiva ao uso de veículos industriais, mas tal como todas as demais normas regulamentadoras não esgota de forma alguma o assunto havendo necessidade da atuação do profissional especializado para o desenvolvimento e detalhamento de um programa especifico. Obviamente isso irá variar conforme o tamanho da empresa, sua atividade e especialmente quantidade e variedade de veículos em uso.

Interessante aqui lembrar que parte do assunto também deve ter como referência a Norma Regulamentadora 26 – Sinalização de Segurança , na qual fica claro que os equipamentos de transporte e manipulação de material, tais como empilhadeiras, tratores industriais, pontes-rolantes, reboques, etc., devem – para a prevenção de acidentes – estar pintados na cor amarela (NR 26 – 1.5.3).

Embora isso seja legislação e no item 1.1 da mesma norma fique claro que e esta “fixa as cores a serem usadas” – muitos equipamentos disponíveis para venda e locação no mercado estão pintados em outras cores. Cumpre aqui lembrar que a inobservância deste item implica em multa por parte do Órgão Fiscalizador – MTE.

Uma outra parte bastante interessante da NR 11 diz respeito ao item 1.3, onde fica definido que os equipamentos utilizados na movimentação de materiais serão calculados e construídos de maneira que ofereçam as necessárias garantias de resistência e segurança e conservados em perfeitas condições de trabalho.

No que diz respeito a cálculos (dimensionamento) e construção é importante que o SESMT busque conhecer e se possível ter cópia dos memoriais ou processos de calculo e aquisição. Uma única talha mal instalada pode causar danos imensos e acidentes fatais o mesmo podendo ocorrer devido a improvisações – estas tão comuns nas empresas brasileiras.

Vale lembrar aqui que a responsabilidade técnica pela orientação quanto ao cumprimento do disposto nas NR é do SESMT (NR 4 – 12.d).

Ainda com relação a este item chamamos a atenção para a última frase que menciona a conservação e perfeitas condições para o trabalho. Mesmo que o assunto esteja restrito a uma linha de palavras sua extensão é bastante grande é importante e só pode ser obtido e principalmente evidenciada pela inserção de todos os veículos industriais em um plano de manutenção preventiva que no nosso entendimento deve ser auditado periodicamente pelo SESMT e os possíveis desvios evidenciados através de documentos.

Importante ainda que este plano de manutenção esteja baseado em procedimentos (escritos) básicos de verificação garantindo assim que todos os itens de segurança sejam sistematicamente verificados.

Isso em suma quer dizer que os critérios não devem ser deixados em aberto ou a escolha do executor e não podem deixar de conter os itens mencionados em 1.3.1 (cabos de aço, cordas, correntes, roldanas, ganchos, etc.).

Atenção especial deve ser dada ao item 1.8 que define a substituição imediata de peças defeituosas.

Toda manutenção deve ser feita sempre a apenas por profissionais capacitados para esta finalidade e devem gerar evidências documentais nas quais entre outras coisas seja possível em caso de necessidade identificar o responsável pela verificação e reparos; Por fim, recomenda-se ainda que seja definida uma sistemática de verificação a ser feita pelo próprio operador – ou seja algo como um check list básico a ser observado antes das operações pelo usuário do veiculo.

Uma dúvida muito comum com relação ao assunto tratado no parágrafo acima diz respeito a freqüência ou periodicidade das manutenções.

A decisão quanto a freqüência terá como base o rigor do uso e a atividade executada. Veículos industriais utilizados em áreas com ambiente agressivo serão submetidos a preventiva com maior freqüência, o mesmo devendo ocorrer com veículos cuja possível falha durante utilização implique em possibilidade de danos maiores (locais mais populosos, locais com equipamentos suscetíveis a danos e/ou que comprometam a continuidade das operações, etc.)

Uma outra exigência da NR 11 – esta no item 1.3.2 – diz respeito a obrigatoriedade de indicar em local visível em todos os equipamentos deste tipo a carga máxima de trabalho permitida.

Para muitos tal exigência trata-se apenas de uma mera burocracia e estes certamente desconhecem a quantidade de acidentes que ocorrem devido ao uso de equipamentos deste tipo em condições acima de sua capacidade de carga. Desconhecem também as conseqüências advindas da inobservância de algo tão simples que vão desde a morte de pessoas, passando pelo esmagamento de membros e passando invariavelmente por perdas do patrimônio e danos a produção.

Todos os equipamentos devem ser sinalizados quanto a sua capacidade, tal sinalização deve ser como diz o próprio texto na NR – VISIVEL.

Infelizmente ainda encontramos em muitos locais de trabalho talhas cuja identificação de carga inexiste ou quando não é tão pequena que quando perguntados aos usuários o quanto aquele equipamento pode levantar ouvimos diversos números totalmente diversos e na seqüência diversas histórias que nos deixam assustados.

Como complemento deste assunto, devemos também estar atentos para as possíveis reduções de capacidade – que ocorrem em alguns equipamentos depois de possíveis alterações ou anos de uso.

No caso especifico das empilhadeiras existem testes padronizados pelos fabricantes para verificação da capacidade e estes são recomendados para um bom programa de segurança relativo ao assunto.

Detectadas as reduções de capacidade estas devem ser alteradas e os usuários amplamente informados visto que é comum operadores que identificam as máquinas por seu tamanho.

Importante também lembrar e orientar a todos os usuários de equipamentos deste tipo quanto as alterações devido ao uso de extensores (capas de paleta), correntes, etc.

Atenção especial da a NR 11 para os carros manuais de transporte – que para muitos parecem inofensivos – mas que são grandes causadores de pequenos acidentes.

Há alguns anos acompanhei o caso de um grande hospital no interior de São Paulo onde o número de acidentes tendo como parte atingida as mãos era muito alto.

Feita uma análise mais detalhada acabamos descobrindo que era comum a prensagem por carrinhos manuais e macas de transportar pacientes contra paredes e laterais de elevadores.

Dentro das industriais acidentes deste tipo também são muito comuns e podem ser evitados com soluções simples e caseiras que não nada mais são do que a instalação de protetores para as mãos nas alças de manipulação.

Com detalhes a NR 11 descreve as condições relativas ao Operador, iniciando no item 1.5, quando menciona que o Operador deverá receber um treinamento especifico que o habilitará nesta função.

Neste ponto é importante estarmos atentos para alguns detalhes que podem fazer muita diferença, seja na prevenção de acidentes, seja diante de possíveis problemas causados por um acidente.

O primeiro diz respeito a pré seleção do operador, o que passa obrigatoriamente por conhecimentos e requisitos próprios da NR 7.

Portanto, antes de mais nada, o Operador de Veiculo Industrial deve ser uma pessoa apta do ponto de vista medico para exercer e realizar este tipo de trabalho. Isso pode dizer muita coisa, por exemplo necessidade de acuidade visual.

Logo em seguida nos deparamos com a citação “treinamento dado pela empresa” .

É importante saber se há na empresa profissional capaz de desenvolver este tipo de treinamento e ainda se diante de um acidente teremos como evidenciar tal capacidade. Deve-se entender que a coisa não é tão simples como parece e tal entendimento pode ser obtido analisando o que ocorreria no caso de um acidente com a morte de alguém. Recomenda-se que tais treinamentos fiquem a cargo de escolas especializadas e que estas emitam certificados e estes sejam mantidos junto ao prontuário do empregado. Mais do que isso recomenda-se que periodicamente seja feita uma reciclagem pelo menos quanto aos princípios básico da operação e sempre quantos as normas de segurança na operação.

Com relação ainda ao treinamento chama-se a atenção neste ponto para a variedade de veículos industriais hoje em uso.

O que antigamente era restrito a uma ou duas variedades passou a ser na atualidade muito diferente.

Há por todas partes paleteiras, rebocadores, guindastes, pontes rolantes com operação no próprio equipamento ou a distância, etc.

Obviamente, cada um destes equipamentos tem características bastante diversas, embora muitos sejam similares em suas bases.

Portanto, há necessidade de treinamentos específicos. Fica claro que entre uma empilhadeira e uma paleteira há grandes diferenças no modo de operação e riscos de acidentes.

Uma dúvida ainda paira quanto a obrigatoriedade de Carteira Nacional de Habilitação para os Operadores de veículos como empilhadeiras, rebocadores e paleteiras.

O Código Nacional de Transito em momento algum é claro quanto a obrigatoriedade para de CNH para estes veículos. É realmente seria muito estranho se o fosse, visto que proveito teria para a prevenção e operação habilitarmos operadores treinados e aprovados em aprendizados e exames com veículos de passeio, ônibus ou caminhões ? São veículos de características e operação totalmente distintos dos veículos industriais citados.

Acreditamos que no caso dos veículos que por algum motivo façam uso de vias públicas – é portanto sejam emplacados – o assunto deva ser analisado com detalhes junto ao órgão regulamentador de transito. No mais, para Operações dentro das empresas – conforme a própria NR - cita o curso habilita e penso que seja a esta habilitação que o item 1.6 refira-se . Em termos de cuidados preventivos parece desejável que o candidato tenha CNH (independente da categoria desta) e assim conhecedor das regras básicas de transito e sinalização.

No que diz respeito ainda ao Operador, os itens 1.6 e 1.7 citam a obrigatoriedade do cartão identificação com nome e fotografia utilizado em local visível durante toda a operação.

Tal cartão tem a validade de um ano – salvo imprevistos – e está associada a realização de exame de saúde completo.

No que diz respeito ao uso do cartão conhecemos as dificuldades para o cumprimento visto que muitas vezes eles acabam implicando em risco para o Operador que necessita por exemplo movimentar-se entre as cargas e o mesmo acaba enroscando.

Portanto, formas devem ser encontradas para que o uso não implique em riscos. O uso do cartão facilita em muito – nas empresas de maior porte a identificação das pessoas e a coibição de práticas inseguras – ou seja, a operação por pessoas não habilitadas. Para facilitar mais ainda a verificação recomenda-se que no próprio cartão exista o campo relativo ao exame médico (com espaço para que o Medico assine e coloque o numero do seu CRM).

Propositalmente deixamos para tratar quase no final deste texto a questão citada no item 1.7, onde fica definido que os equipamentos de transporte motorizados devem possuir sinal de advertência sonora (buzina).

Obviamente como em todo meio que se locomove tal equipamento é de importância. No entanto, preocupa-nos a crescente tendência de veículos industriais – em especial empilhadeiras , paleteiras e rebocadores - que vem equipados com tipos de sinais sonoras que permanecem acionados por todo tempo do deslocamento ou ainda aqueles equipados com “sirenes” ou equivalentes. Sem dúvida alguma em prol da prevenção de acidentes os dispositivos que sinalizam a marcha ré são muito úteis. No entanto, quando a sinalização tanto visual como sonora vai além disso há necessidade de analisarmos o quanto isso pode contribuir para a dispersão da atenção das pessoas envolvidas nas operações e mesmo para o estresse dos empregados.

Se de fato, devido aos riscos de acidentes (bem avaliados) há necessidade de definirmos algum tipo de sinalização para os movimentos em veículos que seja preferencialmente o uso de pisca alerta em lanternas fixas e sem parte sonora. De forma alguma algum meio definido para a prevenção de acidentes deve colateralmente ser a causa de incômodos ou danos aos empregados.

Encerrando a parte desta NR que diz respeito aos veículos industriais, trata-se da questão da concentração de poluentes no ambiente do trabalho. Dentro desta preocupação devemos dar atenção especial a questão do ruído, o que faz parte de um estudo mais amplo de engenharia já na fase de antecipação – quando possível.

CUIDADOS ADICIONAIS

Na prática, concluindo este breve trabalho sobre veículos industriais, outras preocupações que não são mencionadas na legislação devem ser objeto de atenção de quem tenciona realizar um bom trabalho quanto aos veículos industriais.

Jamais devemos esquecer de que veículos industriais – em especial os movidos a óleo – com passar do tempo começam a apresentar vazamentos e que estes são formadores de poças no piso que por sua vez acabam sendo a causa de quedas.

Por esta e outras razões todos os veículos devem ter previamente definidos os locais onde serão estacionados quando não estiverem em uso (fora dos locais de passagem) e caso ocorram vazamentos devem ser mantidos sobre caixas de areia.

Uma outra situação importante é o uso por pessoas não habilitadas. Para que isso não ocorra também devemos ter definido um local para a guarda da chave do veiculo quando não estiver em uso. Este local deve ser fechado e estar sob o controle de um responsável.

Enfim, há muito mais a ser dito sobre o assunto.

Tenho certeza que despertado o interesse pela elaboração de um programa de segurança para veículos industriais, através da pesquisa e estudo cada profissional irá aperfeiçoar e moldar as ações conforme sua realidade e necessidades.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A PRIMEIRA INSTRUÇÃO É A QUE FICA
 
Hoje vamos falar sobre INTEGRAÇÃO. Principalmente tentar dizer as pessoas que integração não é uma formalidade a mais ou simplesmente uma etapa a cumprir cujo objetivo final e principal é a obtenção da assinatura do trabalhador em um documento a mais.

Vale aqui então lembrar o ditado popular que afirma que a “primeira impressão é a que fica” – e na verdade não apenas lembra-lo mas associá-lo a nossa área de trabalho como uma realidade. Analisando veremos e lembraremos que em nossas vidas pessoais, nas nossas atividades cotidianas – boa parte do que acontece tem muito haver com o primeiro contato que temos com alguma pessoa, com alguma instituição ou assunto. Se este contato for bom e positivo e bem provável que dali em diante seja estabelecida uma boa relação – ao mesmo tempo – se este contato não for tão positivo – e bem provável que não surja uma relação ou se surgir que não seja mais do que obrigatória e desprazerosa. Obviamente uma das bases que define isso diz respeito também a impressão que temos sobre fatos, lugares e pessoas.

Para a prevenção não ocorre de forma diferente e por isso devamos dedicar muita atenção ao processo de planejar e realizar uma boa integração pois com certeza ela será decisiva para o balizamento da relação dos novos colaboradores com nossa área.

E tudo isso começa quando entendemos que não podemos nos portar apenas como “caçadores de assinaturas em evidências e registros” – ou seja – ter a compreensão de que quando realizamos uma integração estamos colocando ali o primeiro contato daquelas pessoas com nossa área. Então a integração deveria ser algo assim como um “bem vindo” – obviamente recheado com o conteúdo que precisa ser transferido a quem dela esta participando.

As piores integrações que já tive oportunidade de assistir na minha vida são as feitas por pessoas tipo “aqui mando eu”. Obviamente diante da necessidade do emprego nenhum dos participantes ao menos abre a boca para contestar qualquer uma das cosias dito por aquele ser “super poderoso” que se coloca ali na frente e se dedica a arte do poder – no entanto passado o evento da integração a grande maioria ira reagir – as vezes até de forma inconsciente – as “agressões” recebidas na integração e embora muitos de nossos colegas jamais tenham se dado conta – parte dos problemas que enfrentam no dia a dia do sue trabalho tiveram inicio lá na integração.

Menos problemáticas em termos de relação pessoal mas muito ruins para o contexto da prevenção são as integrações não interativas - ou seja aquelas onde um filme – mesmo que muito bem feito – tenta fazer as vezes do contato humano. Além de ser totalmente impessoal de certa forma denota que apesar de toda preocupação que tal organização alega ter com o assunto prevenção ela não é suficiente para que algum dos seus representantes tenha em seu planejamento algum tempo para vir falar as pessoas sobre prevenção. Por fim, não permitem qualquer tipo de realimentação quanto ao entendimento ficando aquela impressão – e logo a primeira – de que estamos ali para cumprir tabela ou mera formalidade. Se seu programa de prevenção é importante para a organização e apesar disso não há recursos e tempos para uma boa integração há necessidade de uma revisão critica sobre este assunto.

Enfim muitos são os problemas que vão daquela integração que continua sendo usada hoje tal como foi feita para os navegadores de Cabral quando aqui chegaram e vão até a integração “modernosa” onde tem mais valores os efeitos especiais – e na verdade os recursos do que o conteúdo prevencionista propriamente dito – estas alias podem ate impressionar de forma geral – mas pouco ou nada servem para a prevenção.

De uma forma geral a integração deveria:

1) Ser resultado de uma boa análise feita pelo profissional de Segurança no Trabalho reconhecendo e listando tudo o que é importante como informação a ser repassada a aqueles que estão chegando a aquela organização.

Obviamente o tempo de duração será proporcional a natureza e quantidade de riscos e perigos – variando de organização para organização.

2) Integração jamais deve ser vista ou entendida como treinamento – se há necessidade de informação/formação mais detalhada outro evento deve ser marcado para o grupo ou pessoa que dele precisa.

3) O material e método a ser utilizado devem ser atrativos – no entanto mais serem vistos como mais importantes dos que o conteúdo. Vale lembrar sempre que o objetivo e INFORMAR SOBRE PREVENÇÃO

4) A integração é um momento de alta seriedade – mas seriedade jamais quis dizer cara feia ou postura mais rígida. É importante que este momento seja utilizado para que aqueles que ali chegam sintam confiança e canais de dialogo abertos com os responsáveis pois isso levara a uma relação muito interessante e rica no ponto de vista da prevenção.

5) Sempre que possível que seja feita não apenas pelo profissional de Segurança – mas também pelo gestor da área ou do contrato que desde aquele momento irá expressar seu compromisso de forma publica com o assunto.

6) O material da integração deve ser atualizado com bastante freqüência evitando que fique defasado e não contemple todos os itens necessários.

7) A integração não deve ser apenas a leitura do “decálogo das proibições” – ou ainda a “Sessão do Medo”. Prevenção é educação e não contribuímos para isso apenas dizendo o que não deve ser feito – antes devemos explicar o tipo e natureza dos riscos e perigos e levar os colaboradores ao entendimento do mesmo

8) Por fim, pratique a retro alimentação de forma mais completa, reservando espaço para que a cada item explanado seja possível que pelo menos um dos participantes confirme o entendimento através de uma breve explanação.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A CULTURA DO NÃO

A CULTURA DO NÃO
 
Tal como os demais grandes problemas nacionais - onde com certeza a questão prevencionista está inserida - a questão da segurança e saúde no trabalho encontra-se neste momento em uma das encruzilhadas do processo histórico. Há necessidade de buscarmos novas formas de atuação, as quais apenas serão validas se houver uma ampla e consciente discussão sobre o tema com a participação ativa de todos aqueles que de fato conhecem o assunto. Mais do que isso, para que este momento conduza a um futuro melhor é preciso rever muito mais do que técnicas e normas as questões culturas relativas ao assunto.

Por toda parte vemos o ressurgimento de velhos debates revestidos com a roupa do novo. Lamentavelmente notamos que a grande maioria deles passam distantes da verdadeira realidade e prestam-se na maioria das vezes apenas reformulação do modelo vigente com tendências a flexibilização das responsabilidades. Há como sempre houve o desconhecimento do obvio: Apenas leis não bastam ! Culturalmente vivemos no país onde leis prestam-se apenas a poucas situações e que as relações - na sua forma sólida e respeitosa - precisam ser construídas passo a passo. Em todo o processo e ao longo dos anos a presença do SESMT foi de grande valia para este enfoque, trazendo para o debate entre as partes a luz do conhecimento técnico - que nestes casos - é essencial a consecução dos objetivos - e de certa forma faz frente aos descalabros com que se trata assunto de tamanha importância.

O primeiro passo para que esta discussão e busca tenham alguma validade passa pela coragem de questionar quais são as reais causas do problema. Obviamente para que encontremos algumas respostas válidas e que possa assim ser base para planos de correção realistas é preciso que ocorra rápida e grande evolução nos conceitos que muitos ainda adotam e difundem. Enquanto nos mantivermos presos aos paradigmas com certeza nada irá ocorrer de novo e capaz de alterar a realidade que conhecemos. Enquanto permitirmos que os temas sejam tratados mais com o enfoque político do que técnico, com certeza estaremos perpetuando o estado de coisas tão bem conhecido. Na minha forma de ver, o primeiro passo a ser dado para modificar estado de coisas e a mudança de postura dos profissionais do SESMT, que necessitam urgentemente deixar de ser o especialista apenas dentro dos locais de trabalho e assumir de vez por todas seu papel como interlocutor do assunto, como especialista e conhecedor, trazendo a tona subsídios para uma tratativa mais realística dos temas.

Ao longo dos anos, temos sido omissos nesta forma de atuação, em certos momentos parece que não há no pais um segmento tão grande com capacidade e conhecimento para fazer chegar a comunidade em geral seus preceitos e conhecimentos que com certeza são por demais úteis a vida de cada um. Reside ai um grande erro. Talvez pela nossa omissão, outros se sintam no direito de dizerem - e na forma equivocada - qual o molde adequado para a questão prevencionista. Não se trata aqui - e todos sabem como sou contrario ao corporativismo doentio - de gerar e defender nichos de trabalho, antes, trata-se de assumir dentro do contexto social um espaço de suma importância e muito mais do que isso, uma espaço necessário a ordem das relações gerais.

Nós somos os especialistas no assunto e como tal devemos nos fazer representar. Ao contrário disso, ocorre talvez por nem mesmo entendermos a dimensão daquilo que fazemos e podemos fazer, o verdadeiro horror e descaso que passa por detrás da questão dos acidentes, ocorram eles em qualquer lugar que seja.

A partir da ocupação do espaço dentro da sociedade, cabe-nos também a busca - como especialistas e cidadãos - no debate político da regulamentação das coisas de nossa área. Ao longo dos anos, insistimos - talvez ate pelo volume de necessidades e urgência das ações - em pautarmos nossos trabalhos limitados aos nossos segmentos. Conheço inúmeros bons profissionais que trazem em si a qualidade de experiências e conhecimentos que seriam por demais úteis se fossem formalizados como referencias comuns. No entanto, pecam quando se ausentam da macro discussão, deixando este fórum aberto para outros que nem sempre trazem em si conhecimentos e vivência necessárias ao desenvolvimento de referencias ao menos aplicáveis a realidade brasileira. Portanto, ou começamos a adotar posturas de cidadania com relação ao que fazemos, ou de vez por todas, abandonamos a prática das reclamações.

Como se pode ver, apenas neste primeiro momento encontramos dois problemas relativos a cultura que o próprio SESMT tem em relação ao assunto. Por mais distantes que pareçam, são problemas como estes que inibem o crescimento da causa prevencionista. Já passou longe a hora é a vez de assumirmos nosso lugar dentro da sociedade como um todo.

COLECIONANDO EQUÍVOCOS
Para muitos de nossos colegas de área, atuar na Área de Prevenção de Acidentes é pura e simplesmente aplicar as técnicas e normas ao local de trabalho. Tais pessoas não conseguem ainda visualizar a riqueza de uma área técnica e suas possibilidades. Muitas delas orgulham-se de viver em eterno conflito com as demais áreas e talvez por isso sintam-se verdadeiros xerifes para a causa, como se tivessem a capacidade ou mesmo a atribuição de serem os donos do tema. Trabalham no varejo e passam a vida toda resmungando e atribuindo a terceiros o insucesso de nossas atividades.

É preciso que entendam qual é na verdade o real papel de uma especialista. Talvez a partir deste momento de compreensão, passem nos primeiros dias por uma verdadeira crise de identidade, sentindo-se talvez ainda menos importantes. No entanto, se estiverem atentos, com o passar do tempo poderão vislumbrar que também para nós há um lugar ao sol. Deve ficar claro, que mesmo a NR 4 - na sua definição de quadro para o SESMT, demonstra que o número definido de profissionais - em muitos casos na proporção de 1 Técnico para 500 empregados, inviabiliza este tipo de atuação. Portanto, devemos buscar formas de atuação mais sistematizadas ou em português mais claro, mais inteligente.

O rol de equívocos é muito grande. Há também aqueles que sentem-se os arautos da lei, parecendo mesmo esquecer que as demais pessoas são alfabetizadas e que sua utilidade está assegurada não por saber ler ou informar, mas por saber transformar itens de lei em práticas de gerenciamento, ao invés de mero arauto, cabe melhor ser interprete, profissional capaz de transferir as letras da lei em situações e fatos aplicáveis, traduzir necessidades em propostas, ser para o Executivo um verdadeiro Assessor e não um lastimável fiscal. Ter condições de sentar numa mesa de decisões e contribuir ali como o homem da prevenção, de igual para igual com os demais especialistas.

Ao longo dos anos, a imagem do Técnico de Segurança tornou-se tão distante do que ele deve e pode ser, que de fato sua utilidade - nestes moldes - passa a ser questionável. Pagar alguém para tomar conta se os outros usam ou não EPI - já paga-se aos Supervisores. Pagar alguém para ficar distribuindo copias de leis e normas - muitas empresas já assinam bons informativos. O diferencial certamente está em alguém capaz de resolver problemas ou propor meios e estratégias para tanto. Se você está for a deste foco, tenha certeza que contribui muito para que a prevenção de acidentes não saia do lugar onde se encontra. Se quiser entender melhor o assunto, por algum instante que seja, coloque-se no lugar de quem paga seu salário.

A CULTURA DO NÃO
Eis aqui um ponto que muito me preocupa. Depois de todos estes anos atuando na área, passei a chamar de Cultura do Não a postura que a grande maioria de empresas e seus chefes tem com relação a questão de segurança e saúde. Parece algo impalpável, mas na verdade tenho certeza que a grande maioria de nós já presenciou ou ao menos ouviu falar sobre fatos desta natureza. A cultura do não manifesta-se e é comprovavel até mesmo nas ações oficiais. Basta prestar atenção.

Recentemente, lendo um belíssimo livro que um Sindicato aqui da Grande São Paulo organizou e vem publicando nos últimos anos, chamou-me a atenção quando em dado capitulo apresentam uma serie de relatos sobre acidentes ocorridos. Como Técnico, encontrei nestes acidentes uma série de informações interessantes, no entanto o que mais chamou a atenção e que em quase todos os casos descritos - todos tendo incapacidade permanentes ou mesmo morte como conseqüência - a correção da causa se deu logo em seguida ao ocorrido, seja através da instalação de um pequeno pedaço de chapa, de uma grade, enfim de coisas absurdamente simples e com custo irrisório. Isso quer dizer, que se houvesse de fato algum tipo de preocupação com as normas ou mesmo com a vida, tais acidentes e suas conseqüências seriam plenamente evitáveis, sem que para que isso houvesse necessidade de qualquer recurso maior. Porque isso não ocorre : Pela cultura do não, pela forma absurda de não querer fazer pura e simplesmente.

Observem com mais detalhes e verão isso em muitos locais de trabalho. Notarão que ao longo dos anos, sabe-se lá porque, muitas pessoas desenvolveram um alto grau de rejeição com a questão da prevenção. Superficialmente talvez isso diga respeito a sensação de poder - ou seja - eu mando ! e Se não fui eu quem mandou fazer, ninguém vai fazer porque não quero. Ou numa forma variável - Na minha área mando eu ! Pode parecer estranho, mas isso existe e a quantidade não é pequena.

Para dar vida a este tipo de cultura, simultaneamente vemos dia após dia a impunidade. Vivemos ainda encobertos pela mística do termo acidente - do qual muitos se servem para encobrir verdadeiros homicídios. Precisamos educar nossas autoridades - e também sobre isso que falamos lá no inicio deste texto - fazer ver que acidente é algo imprevisível, que surge de uma conjuntura de fatos e ações que não foi possível precisar e ao mesmo tempo, que deixar uma engrenagem sem proteção nada tem haver com acidente, tudo tem haver com omissão seja em relação as leis - claras para este tema - seja em relação ao respeito a vida - assunto ainda meio obscuro em nossos dias.

Em certo ponto do processo das relações sociais, a questão da segurança e saúde se confunde com todas as demais questões que dizem respeito a preservação da vida humana. Enquanto existir possibilidade de justificar o injustificável - mesmo que diante da mais evidente prática da cultura do não - caminharemos assim, vendo que o trabalho matar, não naquilo que tem de sofisticado e por isso merece mais estudos e interpretações - mas nos rudimentos do conhecido, nos rudimentos do normalizado que jamais se cumpre pela certeza de que ocorra o que ocorrer - a impunidade falará mais alto.

E diante desta cultura que devemos fazer frente. São estes os fatos que nos levam a crer que apenas a atuação rotineira da prevenção jamais será capaz de mudar a situação atual. Precisamos interpretar todo o contexto histórico do assunto e se desejamos mudanças verdadeiras, atuar em todas as frentes - seja como profissional seja como cidadão - ou na condição ideal de profissional-cidadão.

Acima de tudo, precisamos romper com nossa participação dentro da cultura do não, deixando de dizer não a prevenção como todo e enfiando a cara no buraco como avestruz que acha fazer o bastante mas limita-se apenas a fazer o mínimo, olhando e tendo consciência de que quando um trabalhador morre, morre também ali um cidadão.

Enfim, ou despertamos para o todo do assunto, ou continuamos apenas sendo os arautos das leis que outros fazem e os fiscais daqueles que poucos cumprem.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.